Liberdade, prisão de muitos.


Há os que estufam o peito para falar sobre ela ou ainda para reivindicá-la, como se liberdade fosse apenas desatar o grito incontido ou esvaziar do peito a insatisfação ou alegria comprimida. Já se disse, num passado não muito distante, em um comercial de televisão que “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser“, como se esta estrada fosse trilhada na solidão dos nossos passos, ignorando as pegadas dos que nos cercam. Há os que se arvoram e adentram nas linhas da retórica, desenlaçando palavras de ordem, regurgitando “chavões” e ilhando-se na miopia do não se perceber, enquanto partícipe dos processos de avanços ou recuos nossos e do nosso País. Penso que apenas a palavra que esculpe o desacerto, destituída de sugestões para o enfrentamento das questões que nos envolvem é uma apologia à inoperância. Enquanto cruzarmos braços e nos utilizarmos tão somente das letras que transbordam facilmente dos nossos lábios ou das nossas mãos, seremos sempre promessas de homens e de um País do futuro. Ora, liberdade é mais que uma via de mão dupla e existem sempre mais transeuntes neste caminhar. Talvez, aqui caiba uma menção ao livre arbítrio, com que o Mestre Maior tão generosamente nos agraciou. A vida, a todo e a qualquer momento, nos convida a escolher. E isto é também uma forma de liberdade ou de auto condenação. Cabe-nos alargar nossa visão e fazer do ato de olhar, algo mais que ver. Liberdade requer interação. A crítica vazia, efetivada por lábios e mentes ávidos, mas inoperantes, acaba por ser cárcere e prisão solitária. Lembro-me de um antigo colaborador que possuía inata “habilidade” para desembrulhar erros e falhas existentes no País, nos Governantes e também aos que mais próximo lhe rodeavam. Detinha visão requintada para apontar problemas e desmandos, usando da propalada liberdade de expressão, que tanto lhe faltara, quando o Brasil vestia a armadura da ditadura militar. Quando questionado sobre alternativas para corrigir rumos, o silêncio era proporcional à extensão do discurso do desagrado. Igual emudecimento se dava, quando eu perguntava sobre onde, ele poderia contribuir para a mudança deste cenário. Ora, falar apenas o que se pensa e se sente, soa-me como liberdade falaciosa. A palavra, assim como o sonho sem ação cria bolor. Deixemos as letras em silêncio, enquanto não tivermos disponibilidade para desalgemarmos nossas mãos ou enquanto tivermos dedos que apenas apontam, mas que não se misturam na argamassa do realizar. Ser livre é um ato responsável e de comprometimento com a transformação daquilo que nos soa como erro ou atitude falha. Liberdade é ser cúmplice de destinos, sabendo que a nossa ação pode ser redenção para nós próprios e para outros tantos. Talvez, fosse oportuno nos indagarmos, o que andamos deixando de fazer, para contribuir para o descarrilar do comboio desta tal liberdade!
Fernanda Guimarães


efeneto



1 comentário:

Eärwen Tulcakelumë disse...

Caro Amigo,
Palavras acertadas, texto para ser lido e relido, pois nos faz ver o quanto essa palavra "liberdade" é extensa, e às vezes nos prendemos em significados tão pequenos.
Liberdade, livre arbítrio, escolhas... como é preciso prensar e tentar achar o equilíbrio necessário...
Gostei mesmo Efeneto, que nossas almas consigam continuar livres em seus caminhos em busca da evolução.
Com carinho
Eärwen
29.04.07